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Transporte Público

Todos os dias, acordo às 5:35 da manhã. A cada cinco minutos, até às 5:52, meu celular desperta. Sim, eu já quis jogá-lo na parede, e sim, já cheguei a ouvir o toque do despertador enquanto andava pelas ruas, de tão impregnante que é. Então, tecnicamente, as 5:55 estou de pé. Tenho exatos vinte minutos pra ficar pronta, sair correndo e pegar um ônibus. Esclareço aqui a primeira vantagem: exercício físico. Tenho que sair correndo, com salto/bolsa/sacola/coque desmanchando e entrar no famoso espaço chamado "ônibus". Tenho fé que você identificou minha ironia: aquilo não é um ônibus, não é uma lata de sardinha: é uma lata de atum.

É tanta gente, tanta coisa, tanto povo, que me sinto um dos pedacinhos de atum enlatado que compramos no mercado. O primeiro sofrimento é chegar na roleta. Há pessoas em todos os lugares: na escadinha da entrada, nas portas laterais, no motor, na roleta, nos corredores, no chão, até no teto, se bobear. Mas, aí, você consegue passar a roleta. E precisa encontrar, no meio da turba, um lugar que dê pra você se pendurar por pelo menos com um dedo; e aí seu pesadelo se inicia. Não há espaço. Seu cérebro calcula todas as possibilidades: se aquela tia ali deixa se de se pendurar em dois bancos ao mesmo tempo, se o amigo ali chegasse mais pra lá, se uma pessoa simpática segurasse sua bolsa seria um grande favor, considerando que tem tudo lá dentro, e seu braço está quase gritando "socorro"... E aí você localizar: ali, ali me cabe. 

Então, como um soldado, você luta bravamente pra chegar até lá. Há curvas, brecadas, bolsas, pés, mãos, cabeças, mais bolsas, pessoas dormindo... Mas esse último não te impressiona tanto assim, considerando que, logo logo, você estará assim, e em pé, já que o sono é exacerbado. Acordar batendo alguma coisa, ou caindo no chão, já virou rotina. Quase ir parar no motorista, devido a freiadas, também. Mas, então, você olha pela janela. E a mais perfeita criação está ali: o céu de outono. Todas as frustrações, sono, saudades, nostalgias, são contidas; é você e aquele infinito azul. E aqui deixo a primeira​, e verdadeira, delícia de estar em um transporte público: a janela. Embora muita gente não tenha essa sensibilidade, o bucólico permitido por uma "ventana" é magnífico. E, daí quando você está em um estado de extrema concentração, a amiga lá do fundo xinga a outra. E a turba se agita, te arrastando pro "fundão". Finalmente, você chega ao seu destino. No meu caso, a rodoviária. Minha gente, qual o problema de vocês? Sinto-me numa tourada. Você cogita até sentar, pra evitar ser arrastado. 50 pontos antes, 30 tias resolvem levantar e ir pra porta; minhas queridas, daqui três minutos, o ônibus.vai parar e todos vão descer, pra que sair, quase literalmente, correndo? Eis um risco: quedas. Sim, nem todos descem. Alguns caem. E, acredite, o constrangimento é palpável. 

Você está indo, "tranquilamente", quando, de repente, está no chão. A primeira sensação é: virei uma gelatina! E lá está você: um ovo frito estatelado, no chão, na frente de dezenas de pessoas. Ah, poderia ficar aqui por horas a fio, desfiando sobre todas as peripécias da vida no ônibus. Desde a satisfação de sentar, mas sofrer em silêncio quando precisa levantar e ceder o lugar; dos seres "fantásticos" que cantam com todo o fôlego e paixão, enquanto você tenta dormir; dos arranhões, roxos e pensamentos do tipo "o-que-estou-fazendo-da-minha-vida"... Enfim, muitas e muitas coisas.

Mas, no final do dia, como agora, em que faço uma retrospectiva, percebo que tudo isso aqui não é tão ruim; basta você enxergar o lado bom. Graças a ele, se você não tiver outra alternativa, pode ir trabalhar, ir pra faculdade (mesmo nas aulas de sábado) e fazer compras. Pode apreender coisas incríveis sobre comportamento e pode, acima de tudo, olhar pela janela, o que é tudo de bom!

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